Discutir a intolerância religiosa no Brasil requer franqueza: quando as religiões de origem africana são atacadas, não se trata apenas de diferenças de crença, mas de um racismo que tem raízes profundas e que ainda se manifesta de muitas formas. Os ataques a terreiros, a zombaria de símbolos sagrados e a violência contra os adeptos do Candomblé e da Umbanda não são eventos isolados. Eles representam uma sociedade que ainda classifica culturas, crenças e identidades de maneira hierárquica.
Apesar de o Estado professar um caráter laico, a realidade prática revela outra verdade. Enquanto algumas religiões gozam de aceitação e proteção social, as de cunho africano continuam sendo vistas como ameaças, superstições ou até crimes. Isso não ocorre sem motivo. Essas tradições carregam uma herança africana, negra e ancestral que o Brasil, ao longo da história, procurou erradicar ou demonizar.
Não se pode abordar a intolerância religiosa sem entender sua base racial. O que frequentemente é atacado não é somente a crença em si, mas tudo que ela simboliza: resistência, identidade negra, memória e senso de pertencimento. Quando um terreiro é colocado em chamas ou uma criança enfrenta constrangimento por usar guias, a mensagem é clara — certos modos de viver ainda são vistos como inaceitáveis.
Nesse contexto, o letramento antirracista passa a ser uma necessidade urgente. Ensinar sobre antirracismo envolve instigar a análise de estereótipos, entender a história do Brasil além de uma perspectiva eurocêntrica e valorizar as culturas afro-brasileiras. Isso também implica em compreender que respeitar as religiões africanas não implica em concordar com elas, mas em reconhecer que o direito à fé é um direito humano fundamental.
As escolas, a mídia e as instituições públicas têm um papel crucial nesse processo. Quando se mantêm em silêncio, ajudam a perpetuar a discriminação. Ao disseminar discursos que ligam essas religiões ao “mal” ou ao “risco”, intensificam violências simbólicas que abrem espaço para agressões concretas.
Não existe democracia se parte da população é forçada a ocultar suas crenças para sobreviver. Combater a intolerância religiosa é confrontar o racismo que é a base da nossa sociedade. E isso demanda mais do que meras declarações genéricas sobre respeito: é imprescindível uma educação crítica, posicionamentos claros e ações efetivas.
O silêncio diante da intolerância não é uma posição neutra. É conivência.
Escrito por Cairo Santos
Portal do Tom
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